Prévias dos Jogos

Torcedores iranianos trazem bandeiras proibidas do Leão e do Sol ao SoFi Stadium apesar da repressão da FIFA

A presença iraniana nos Estados Unidos encontrou uma vitrine sem precedentes na Copa do Mundo de 2026, realizada em solo americano. No SoFi Stadium, estádio que pertence à Franchise NFL Los Angeles Rams e Los Angeles Chargers, com capacidade para 70.240 espectadores, torcedores iranianos desafiaram as proibições impostas pelo governo de Teerã ao exibir a histórica bandeira do Leão e do Sol durante as partidas da seleçãoiraniana no torneio.

O símbolo pré-revolucionário, que representou o Irã durante mais de quatro séculos — desde sua adoção oficial pelo xá Ismail I em 1576 até a queda da monarquia em 1979 — virou alvo de repressão pelo regime islâmico que sucedeu a Revolução Iraniana. Em 1980, um ano após a revolução que depôs o xá Reza Pahlevi, as autoridades iranianas baniram formalmente a bandeira histórica, substituindo-a pela atual versão verde, branca e vermelha com o emblema do Alcorão e a frase “Allahu Akbar”.

Ameaças de sanções não intimidaram os adeptos

A FIFA tentou fazer cumprir as restrições sobre símbolos políticos em suas competições, conforme o artigo 4 do Regulamento de Equipamentos de Jogo, que probe “mensagens políticas, religiosas ou pessoais” em eventos oficiais. No entanto, testemunhas no SoFi Stadium relataram à imprensa americana que centenas de bandeiras do Leão e Sol foram vistas entre o público, particularmente durante a estreia do Irã no Grupo F contra uma seleção europeia.

Os torcedores recorreram a métodos criativos para contornar os pontos de verificação de segurança. Alguns esconderam as bandeiras em mochilas junto com artigos de torcedor comum, enquanto outros portavam versões em miniatura costuradas em cachecóis e bandanas. A equipe de segurança do estádio teve dificuldades para conter o fluxo contínuo de símbolos pré-revolucionários.

A organização não-governamental Iran Human Rights, baseada em Oslo, estimou em relatório recente que mais de 500 pessoas foram detidas no Irã desde janeiro de 2024 por exibir símbolos связанные с оппозицией. Mesmo assim, ativistas garantem que a plataforma da Copa do Mundo oferece proteção simbólica para demonstrar identidade cultural sem as represálias diretas do território iraniano.

Contexto sul-americano e a visão brasileira

A situação iraniana não passou despercebida pela mídia esportiva do continente sul-americano. O portal brasileiro Globo Esporte noticiou o fenômeno como reflexo da crescente diáspora iraniana no Ocidente, que segundo dados do Census Bureau dos EUA ultrapassa 1,1 milhão de pessoas concentradas principalmente na Califórnia e em Nova York.

Jogadores brasileiros que atuaram no Campeonato Iraniano, como o meia-atacante Tostão, cujo nome verdadeiro é José Honda, naturalizado iraniano em 1974, entendem a complexidade do contexto. “O futebol iraniano tem uma história rica que vai muito além das divisões políticas atuais”, comentou o ex-jogador em entrevista ao programa Autoesporte da TV Globo.

A perspectiva portuguesa também añade nuance ao debate. O diário Record de Lisboa lembrou que jogadores portugueses como Deco, que defendeu o Porto, e Cristiano Ronaldo, que visita o Irã frequentemente pela Liga dos Campeões com times europeus, witnessaram de perto a tensão entre tradição e modernização no país persa.

A Copa do Mundo de 2026 marca a primeira edição expandida do torneio, com 48 equipes participantes — gegenüber 32 na edição anterior. O Irã se classificou automaticamente como seleção asiática, garantindo presença no mundial pela sexta vez consecutiva desde 1998.

Protestos durante eventos esportivos internacionais não são inéditos. Durante a Copa do Mundo de 2022 no Catar, torcedores iranianos no Estádio Al Thumama protestarampublicamente contra o regime de Teerã após a morte de Mahsa Amini, jovem curda assassinada pela polícia da moralidade. A seleção iraniana foi vaiada pelos próprios compatriotas durante o hino nacional.

Projeção para o futuro

Os organizadores da Copa do Mundo de 2026, liderados pela FIFA em parceria com as confederações de futebol da América do Norte, CAF, CONMEBOL e other stakeholders, afirmaram que respeitarão os regulamentos internacionais enquanto garantem a segurança de todos os participantes. A porta-voz da FIFA, Maria Isabel Rendon, indicou que “diálogos estão em andamento” sobre como equilibrar liberdade de expressão e neutralidade política nos estádios.

Enquanto isso, torcedores iranianos na diáspora prometem continuar usando o futebol como palco de expressão cultural. “A bandeira do Leão e Sol representa nossa história, nossa identidade antes da revolução”, declarou à FOX News um aficionado que prefersiu permanecer anônimo por razões de segurança familiar. “Não podemos falar assim no Irã, mas aqui temos voz.”

Com a expansão do torneio e a diversidade de públicos esperada nos próximos jogos no México, Canadá e Estados Unidos, especialistas preveem que episódios semelhantes se repetirão ao longo do mundial. A Antropóloga da Universidade de São Paulo, Dra. Fatima Alves, especialista em sociologia do esporte, inúmer que “eventos globais como a Copa do Mundo funcionam como arenas políticas informais onde identidades reprimidas encontram espaço de contestação”.

O SoFi Stadium, que também recibirá jogos da Copa Ouro 2025 da CONCACAF e será palco da Cerimônia de Abertura da Copa do Mundo de 2026, permanece no centro dessas tensões entre tradição, política e espetáculo esportivo global.